O Retrato de Clarice

Relendo Clarice, veio a curiosidade: como era ela? Lembrava vagamente do retrato na contracapa de um livro, de seus olhos grandes e oblíquos. Mas queria detalhes. Queria sentir, ver, enxergar algo mais. Quem sabe sentir aquela profundidade que lia em seus textos…

Com ajuda da internet pude encontrá-la. Linda! Que olhar! Presença, desafio, charme e algo que não consigo definir. Vi fotos, vídeos, entrevistas, ouvi sua voz – com o charmoso sotaque de sua “língua presa”. Pude ver alguns de seus trejeitos e olhares. E fiquei ali, por alguns minutos, horas talvez, revisitando as imagens.

E durante esses momentos lembrei do primeiro “encontro” com ela. No qual pude conhecer os pensamentos de Laura, lá na minha infância. Lembrei também dos seus livros e da maravilhosa coleção – Para gostar de ler, onde na esperança de “viajar nas suas ideias” sempre procurava por seu nome na capa, simples e ao mesmo tempo pomposo, em meio a diversos autores fascinantes. 

Hoje, quando a leio, fico em dúvida se há uma forte identificação com seus textos, ou um conforto por reencontrar seus pensamentos. Confesso, sou fascinada e apaixonada por ela, pela forma como nos leva a refletir, pela coragem de escrever e, simplesmente, por ser Clarice, a pensadora, como ela mesma se definia.

E toda essa reflexão e lembrança foram causadas apenas por sua imagem, uma fotografia. O retrato de um ínfimo momento de sua vida – uma janela no tempo. E, como em suas histórias, nesta simples ação de ver a imagem de uma pessoa, tive o vislumbre do poder de um retrato.

Porque a fotografia de um rosto nos traz tantas emoções? Porque a imagem de uma pessoa pode ser impactante e tão marcante? E no meio dessas elucubrações percebi – o retrato é uma das poucas formas que temos (posso ousar dizer que seria a única?) de registrar e replicar as impressões causadas por uma pessoa em nossos sentidos. Podemos gravar uma voz. Podemos associar um cheiro a alguém. Mas apenas um retrato, a fotografia de um rosto, pode trazer informações explícitas e implícitas que despertam lembranças, sensações e sentimentos. E o mais impressionante, nosso cérebro faz tudo isso em milésimos de segundos!

Mesmo com todos os recursos que temos hoje em dia, é um retrato que procuramos quando queremos “ver”, conhecer e lembrar de alguém. Ou mesmo, recordar momentos. Podemos ficar olhando um rosto por horas e horas, tentando enxergar um pouco mais. Alguns podem falar que o vídeo traz mais informações, registra ações e é mais “completo”. Com certeza, mas quem nunca congelou um vídeo imagem transformando-o, sem querer, em um retrato?

E foi assim, procurando pelos signos da Clarice, que percebi que é a imagem da face de alguém que nos traz muito mais do que os olhos podem registrar. Por isso, ilustro esse post com uma foto que não é minha. Mas desperta em mim a memória daquela que me faz viajar em pensamentos.